ROTADORES DE NORONHA

Mais de 99,99% dos golfinhos encontrados em Fernando de Noronha pertencem à espécie golfinho-rotador, Stenella longirostris, da família Delphinidae.

Atualmente, são reconhecidas para a espécie Stenella longirostris, as seguintes subespécies Stenella longirostris longirostris, S. l. orientalis, S. l. centroamericana e S. l. roseiventris. O golfinho-rotador que ocorre em Fernando de Noronha pertence à subespécie S. l. longirostris, conhecida como pantropical.

O golfinho-rotador é conhecido cientificamente como “Stenella” por ter o corpo alongado e “longirostris” por ter o focinho (rostro) longo. O nome popular de golfinho-rotador (“spinner dolphin”) é em função de seu comportamento de saltar fora d`água e realizar até sete rotações em torno do próprio eixo.

O rotador encontrado em Fernando de Noronha atinge 2 metros de comprimento, 75 kg de peso e apresenta um padrão tricolor: cinza escuro no dorso, cinza claro nos flancos e branco no ventre.

distribuicao

O golfinho-rotador, que é a terceira espécie de golfinho mais abundante do mundo, é uma espécie cosmopolita que vive em águas oceânicas tropicais no Atlântico, Pacífico e Índico. Nunca entra em rios e raramente é observado perto da costa continental.

Os rotadores podem buscar abrigo em águas calmas de enseadas em ilhas oceânicas, como ocorre em Kealakekua Bay, Havaí, e na Baía dos Golfinhos, Arquipélago de Fernando de Noronha. No Brasil, há registro da ocorrência dessa espécie desde o Arquipélago de São Pedro e São Paulo até o Rio Grande do Sul, e destaque no Arquipélago de Fernando de Noronha.

De acordo com nossa hipótese, os rotadores de Noronha vivem na Cadeia de Montanhas Submarina de Fernando de Noronha. Uma área com forma retangular entre Fernando de Noronha, Atol das Rocas e o Banco Sírius, localizado a 400 km a leste de Noronha.

Os golfinhos-rotadores deslocam-se por uma área de até 700 km, podendo atingir 150 km de distância em 24 horas. As velocidades médias dos rotadores em baías de descanso são de 5 km/h na entrada e 6 km/h na saída.  A velocidade média de cruzeiro dos grupos de rotadores é de cerca de 10 km/h e a velocidade máxima registrada é de 40 km/h.

Golfinho Rotador

Os golfinhos-rotadores têm hábitos gregários, com agrupamentos sociais muito fluídos, quanto ao tamanho e constituição. Estes agrupamentos podem variar de 3 a mais de 2 mil indivíduos, que se deslocam livremente entre diferentes círculos de companhia em questão de minutos, horas, dias ou semanas.

A estrutura social dos rotadores de Noronha é muito fluída, na qual inexiste a figura paterna, os laços familiares são derivações da relação mãe-filha(o) e irmã(o)-irmã(o).  Segundo esses laços, os golfinhos agrupam-se em unidades familiares, sobre as quais se associam os machos adultos, que flutuam entre as diferentes células familiares. A menor estrutura social dos golfinhos-rotadores é a “célula familiar”, liderada por uma fêmea mais velha, a matriarca. Várias “células familiares” se reúnem para formar um “agrupamento”, que pode conter várias gerações da mesma família.

comunicacao

Os golfinhos-rotadores apresentaram um complexo comportamento social, com vários sistemas de comunicação, como visual, tátil, químico-sensorial, sonoro e por atividade aérea. São estes dois últimos que conseguimos estudar em Noronha.

SONORA
sonora

Os golfinhos-rotadores produzem dois tipos de sinais em pulsos explosivos, além de estalidos de ecolocação, silvos com tons puros e assobios altos.

A produção de silvos está associada a movimentos do tampão nasal esquerdo, enquanto a produção de estalidos relaciona-se com o movimento do tampão nasal direito. Alguns sons feitos no ar são gerados pelo orifício respiratório. A produção dos sons é responsabilidade do sistema respiratório por meio do estrangulamento e da vibração dos dutos e sacos de ar do crânio.

Os sinais sonoros variam de acordo com o comportamento dos golfinhos.

AÉREA
aerea

Os movimentos aéreos refletem o comportamento do grupo e estão relacionados ao ciclo diário dos golfinhos. As atividades aéreas estão correlacionadas ao grau de atividade, com o estado de alerta geral, com o deslocamento ou com a coesão do grupo de cetáceos.

O sistema de comunicação aéreo é composto por diversos padrões de saltos e batidas com partes do corpo na superfície do mar, que produzem turbulências características quando o golfinho reentra na água.

areas_concentracao

Nas duas áreas de maior concentração e frequência de Stenella longirostris no Arquipélago de Fernando de Noronha, a Baía dos Golfinhos e Entre Ilhas, notou-se que os rotadores desenvolvem comportamentos vitais para seu ciclo biológico, com exceção de alimentação. Eles são vistos descansando, em atividades sexuais, cuidando dos filhotes, de guarda às ameaças, se comunicando, sendo infectados por agentes patogênicos e interagindo com outras espécies animais. O comportamento de alimentação dos rotadores, que nunca foi observado na Baía dos Golfinhos ou na Entre Ilhas, normalmente ocorre no Mar de Fora. A seguir, apresentaremos uma visão geral dos comportamentos dos rotadores de Noronha.

BAÍA DOS GOLFINHOS
baia_golfinhos

De 1991 a 2015, entre 2 e 2.719 golfinhos-rotadores entraram na Baía dos Golfinhos em 94% dos dias, com número médio de 284 rotadores por dia e permaneceram entre 1 minuto e 12 horas e 45 minutos, com média de 3 horas e 33 minutos.

Observou-se uma clara diminuição do tempo de permanência dos rotadores na Baía dos Golfinhos ao longo dos anos de estudo, principalmente a partir de 2003. Diminuição esta com correlação negativa com o tráfego de embarcações de turismo defronte à enseada.

Na estação das chuvas, de março a junho, os rotadores permanecem menos tempo, vêm em menor número e menor frequência à Baía dos Golfinhos.

BAÍA DE SANTO ANTÔNIO / ENTRE ILHAS
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A Baía de Santo Antônio/Entre Ilhas é o segundo local do Arquipélago de Fernando de Noronha preferido pelos rotadores para descansar desde o início dos nossos trabalhos de pesquisa em 1990, mas a prioridade dos rotadores por esta área está aumentando, enquanto diminui o tempo de permanência destes cetáceos na Baía dos Golfinhos. Em 2009 o tempo de permanência dos golfinhos em ambas as áreas foi estatisticamente igual.

estrategia_sexual

As atividades sexuais ocorrem durante a maior parte do tempo em que os rotadores estão na Baía dos Golfinhos e podem ser divididas em duas classes: reprodutiva e não reprodutiva. A estratégia sexual dos golfinhos-rotadores em Fernando de Noronha caracteriza uma estratégia reprodutiva de forma promíscua e polígama, na qual os parceiros da cópula reprodutiva não são definidos e as atividades sexuais são realizadas sem fins reprodutivos, com objetivo de alcançar prazer sexual ou afetivo.

comportamento_guarda

Observamos em Fernando de Noronha que alguns comportamentos específicos são executados preferencialmente por machos adultos, o que, para animais, que têm estrutura social complexa como os rotadores, são definidos como atividades de proteção realizados pelos indivíduos, que estão “de guarda” protegendo o grupo de ameaça, enquanto que os demais indivíduos  podem se dedicar a outras atividades, como descanso, reprodução e cuidado parental.

Estes comportamentos classificados por nós “de guarda” são: enfrentar tubarões, acompanhar embarcações, cercar mergulhadores e executar atividades aéreas. Os rotadores que estão de guarda são os líderes do momento, que, quando deixam de estar de guarda executam outro comportamento, como descanso, deixando de ser líder. Neste momento, provavelmente outro rotador ficará de guarda assumindo a liderança. Sendo por isto, uma liderança temporária e compartilhada.

conservacao

A espécie Stenella longirostris é classificada como “insuficientemente conhecida” pela União Internacional para a Conservação da Natureza. A Comissão Baleeira Internacional tem proposto como estudos prioritários para golfinhos, a determinação do tamanho das populações que estimulem a utilização não letal dos animais, como as pesquisas do Projeto Golfinho Rotador.

O Plano de Ação do ICMBio /MMA para Mamíferos Aquáticos do Brasil, que classifica o golfinho-rotador na categoria de “dados insuficientes”, propõe o desenvolvimento de estudos sobre a dinâmica populacional e a história natural dos golfinhos de Fernando de Noronha, visando fornecer subsídios para sua conservação e manejo, como as pesquisas do Projeto Golfinho Rotador.

luz_vermelha

Apesar do trabalho do ICMBio e do Projeto Golfinho Rotador, o turismo náutico tem impactado negativamente os golfinhos-rotadores em Fernando de Noronha.

O tempo de permanência dos golfinhos-rotadores na Baía dos Golfinhos do Parnamar-FN tem diminuído desde 2003, passando de uma média diária de 8h e 31min em 1998, para 2h e 37min em 2015. Esta diminuição na ocupação da Baía dos Golfinhos tem correlação negativa significante entre a permanência e o tráfego de embarcações. De 1998 para 2015, a média diária de passadas de barcos de turismo defronte à Baía dos Golfinhos subiu de 3,75 para 12.

Em contraste, a concentração de golfinhos-rotadores permanecendo mais de uma hora por dia na enseada Entre Ilhas aumentou de 10% dos dias do ano entre 1991 e 2006, para 30% dos dias de 2007, para 70% dos dias de 2008 e para 87% dos dias em 2015.

Esse é um primeiro alerta de que os rotadores podem ir embora de Fernando de Noronha. Se não fosse o Projeto Golfinho Rotador protegendo essa população, os rotadores já teriam saído da Ilha.

Os golfinhos-rotadores precisam menos de Noronha do que Noronha precisa dos rotadores, pois afinal de contas, eles são um dos grandes atrativos turísticos do arquipélago!