Trade turístico de Noronha recebe formação para reduzir impactos socioambientais na ilha

Com oficinas do Projeto Golfinho Rotador, pousadas, condutores e empresas recebem orientação em meio ao aumento de visitantes no arquipélago

Em Fernando de Noronha, onde o turismo se entrelaça com áreas de conservação ambiental, um movimento silencioso começa a ganhar força longe dos cartões-postais. O trade turístico da ilha, que reúne pousadas, bares, restaurantes, condutores, empresas de passeio e serviços ligados ao mar, tem sido mobilizado para repensar sua atuação a partir de práticas mais sustentáveis.

A mudança vem acompanhada de formação. Após o lançamento do guia “Vida na Água – Gestão Sustentável à Beira-Mar”, o Projeto Golfinho Rotador, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, iniciou uma série de oficinas e visitas técnicas voltadas a quem vive diretamente da atividade turística. A proposta é fazer com que o material deixe de ser apenas uma referência teórica e passe a orientar decisões cotidianas, da gestão de resíduos ao consumo consciente de recursos naturais.

Na prática, isso já começa a acontecer. Ao longo deste ano, as formações vêm sendo realizadas de forma contínua. Quatro pousadas já foram visitadas pela equipe do projeto, em um acompanhamento direto que observa desde o uso de água e energia até a organização dos processos internos. Ao mesmo tempo, um grupo de 15 condutores participou de uma formação realizada na Associação dos Condutores e Divulgadores de Informações Turísticas de Fernando de Noronha, ampliando o alcance das discussões para além dos meios de hospedagem. A agenda segue com oficinas voltadas a empresas de passeio de barco, especialmente as que operam embarcações a motor, um segmento sensível dentro do ecossistema marinho da ilha.

Dados do inventário turístico de Fernando de Noronha, elaborado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte no âmbito do Programa de Desenvolvimento Econômico Local de Turismo, ajudam a dimensionar o peso da atividade na ilha. Atualmente, Noronha conta com 228 meios de hospedagem em funcionamento, que somam 1.596 quartos e 3.977 leitos. Esse segmento emprega 936 trabalhadores fixos e 180 temporários. Quando somados aos estabelecimentos de alimentação e bebidas, o turismo chega a gerar 1.687 empregos diretos. No campo gastronômico, são 99 bares e restaurantes, com capacidade para atender até 4.619 clientes sentados e um total de 779 funcionários entre permanentes e temporários.

A pressão sobre o território também aparece nos números recentes de visitação. O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha recebeu 139.901 visitantes em 2025, um recorde histórico que ultrapassa o limite anual de 132 mil pessoas previsto no acordo de gestão compartilhada da ilha, firmado entre os governos estadual e federal em 2023 e homologado pelo Supremo Tribunal Federal. No ano anterior, o parque havia registrado 131.503 visitantes, um crescimento de 6,39% em apenas um ano. O acordo também estabelece um teto mensal de 11 mil turistas, mas, em 2024, esse limite foi excedido em oito meses, evidenciando o desafio de conciliar o aumento do fluxo turístico com a capacidade de suporte ambiental da ilha.

Para a coordenadora de Educomunicação Ambiental e Sustentabilidade do projeto, Cynthia Gerling, o desafio é transformar conhecimento em prática, sobretudo em um cenário de intensa movimentação turística na ilha. “Com o crescimento do turismo em Noronha, a adoção de práticas sustentáveis deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade e estratégia de negócios. Segundo a Organização Mundial de Turismo, em virtude da pressão dos clientes e investidores, o empreendimento que não tiver práticas sustentáveis, estará fora do mercado europeu em dois anos. Já iniciamos as visitas nas pousadas e realizamos a formação com os condutores, e vamos seguir com as empresas de passeio de barco. A ideia é que o guia não fique só no papel, mas que se transforme em ferramenta de gestão, ajudando a reduzir impactos e a organizar melhor as atividades em um território tão sensível”, afirma.

A iniciativa retoma uma experiência anterior do projeto, que, anos atrás, ofereceu consultoria gratuita a dezenas de pousadas na ilha. A diferença agora está no alcance. O novo guia amplia o olhar para outros atores do turismo local, incorporando barracas de praia, sedes administrativas e diferentes tipos de serviço, em um cenário em que a atividade cresce e se diversifica.
Sustentabilidade no cotidiano

Para quem já passou por esse processo, a nova fase representa mais continuidade do que ruptura. A empresária Adriana Fernanda Flor, nascida na ilha e proprietária de uma pousada, participou das primeiras formações e manteve, ao longo dos anos, práticas voltadas à sustentabilidade. Agora, vê na atualização do guia uma oportunidade de aprimoramento. “O ponto positivo dessa nova fase é ter um raio-X da empresa, entender como ela está e o que pode melhorar. Para quem empreende, ter números e indicadores faz toda a diferença”, diz.

Entre os condutores, a percepção é semelhante. A formação recente trouxe ferramentas para medir algo que, até então, muitas vezes era feito de forma intuitiva. “A oficina é extremamente positiva porque traz uma forma de mensurar a sustentabilidade no nosso trabalho. A gente passa a entender melhor onde está e o que precisa evoluir, tanto individualmente quanto como associação”, afirma Vithor Macedo, da Associação dos Condutores e Divulgadores de Informações Turísticas.

O avanço dessas formações acontece em um território onde o equilíbrio é permanente. Noronha reúne unidades de conservação e depende, em grande parte, do turismo como base econômica. Nesse contexto, pequenas mudanças operacionais como reduzir desperdícios, ajustar rotinas, cumprir normas ambientais ganham peso estratégico.

Mais do que propor grandes intervenções, o caminho adotado pelo Projeto Golfinho Rotador aposta na soma de práticas cotidianas. “São ajustes feitos no dia a dia por empresários, trabalhadores e condutores que, juntos, podem reduzir a pressão sobre o território”, acrescenta Cynthia Gerling.
É um processo gradual, que exige adesão, acompanhamento e continuidade. Mas que, ao avançar, reposiciona o papel do turismo na ilha: não apenas como motor econômico, mas como atividade que precisa caminhar lado a lado com a conservação de um dos ecossistemas mais sensíveis do país.

Sobre o Projeto Golfinho Rotador

O Projeto Golfinho Rotador vem desde 1990 cumprindo sua missão de conservar a sociobiodiversidade do oceano e dos golfinhos, unindo pesquisa científica e educação ambiental. Com a visão de ser referência mundial na preservação de ecossistemas insulares oceânicos, com uma atuação estruturada em três programas: Pesquisa, Educomunicação Ambiental e Sustentabilidade.

Ao completar 35 anos, o Projeto Golfinho Rotador se consolida como um dos maiores programas de conservação de golfinhos do mundo — em duração, resultados e reconhecimento. Classificado como um PPELD (Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração), o projeto reafirma nestes 35 anos seu compromisso de aliar ciência, educação e afeto para transformar não apenas uma ilha e sua comunidade, mas também a relação da humanidade com o oceano.

Compartilhe
Últimas Notícias

O Projeto Golfinho Rotador é
finalista TOP 3
do prêmio Green Destinations.